Devemos observar inicialmente nesta passagem as diversas opiniões que prevaleciam sobre a pessoa de Cristo durante seu ministério terreno. (Lc 9.18-22) – Alguns afirmavam que Jesus era João Batista; alguns diziam que Ele era Elias, e outros afirmavam que um dos antigos profetas ressurgira dentre os mortos. Uma observação comum se aplica a todas estas opiniões. Todos concordavam que a doutrina de nosso Senhor era diferente da dos escribas e fariseus. Todos viam em Jesus um testemunho ousado contra o mal que havia no mundo.

Não devemos ficar surpresos, ao encontrarmos em nossos dias as mesmas opiniões a respeito de Cristo e de seu evangelho. A verdade de Deus perturba a indolência espiritual dos homens. Ela os constrange a pensar. O evangelho os faz discutir, argumentar, especular e inventar teorias, para justificar sua propagação em alguns lugares e sua rejeição em outros. Milhares de pessoas, em todas as épocas da História da Igreja, gastam suas vidas nestas coisas e jamais chegam a se aproximar de Deus. Satisfazem-se com infelizes comentários sobre os sermões deste ou daquele pregador ou sobre as opiniões de um ou de outro escritor. Elas dizem: “Este pregador é muito exigente”; ou: “Aquele é muito leviano”. Aprovam certas doutrinas mas rejeitam outras. Dizem que alguns pregadores são “corretos” e outros, “errados”. Tais pessoas são incapazes de chegar à conclusão sobre o que é verdadeiro ou o que é certo. Os anos se passam, e elas continuam na mesma situação — discutindo, criticando, achando erros, especulando, mas nunca indo além disso; vagueando como moscas ao redor das coisas espirituais, porém nunca pousando como as abelhas para alimentar-se de suas delícias. Jamais se apropriam de Cristo com ousadia. Não se dispõem a se envolver de todo coração na grandiosa obra de servir a Deus. Nunca tomam a sua cruz e tornam-se verdadeiros cristãos. Por fim, apesar de todas as suas afirmações sobre Cristo, morrem em seus pecados, despreparados para encontrarem-se com Deus.

Jamais nos contentemos com esse tipo de cristianismo. Conversar e especular sobre opiniões a respeito do evangelho não salvará qualquer pessoa. O cristianismo que salva é algo que tem de ser assimilado, apropriado, experimentado, provado e possuído de maneira pessoal. Não existe a menor desculpa para nos determos em conversas, opiniões e especulações sobre o evangelho. Os judeus da época de nosso Senhor poderiam ter descoberto, se tivessem sido sinceros em suas indagações, que Jesus de Nazaré não era João Batista, nem Elias, nem um dos antigos profetas, e sim o próprio Cristo de Deus. O especulador de nossos dias pode satisfazer-se em cada assunto essencial à salvação, se realmente desejar e, com franqueza e humildade, buscar o ensino do Espírito Santo. As palavras de nosso Senhor são enfáticas e solenes: “Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus” (Jo 7.17). A obediência prática e sincera é uma das chaves que abre a porta do conhecimento de Deus.

Em segundo, devemos observar nesta passagem o singular conhecimento e fé revelados pelo apóstolo Pedro. Quando nosso Senhor perguntou a seus discípulos: “Mas vós… quem dizeis que eu sou?”, Pedro respondeu, dizendo: “És o Cristo de Deus”. Esta é uma nobre confissão, que, em nossos dias, dificilmente podemos compreender seu pleno valor. Para avaliá-la corretamente, precisamos nos colocar no lugar dos discípulos. Devemos recordar que os sábios e entendidos de sua própria nação não viam qualquer beleza em seu Senhor e não O receberiam como seu Messias. Precisamos lembrar que tais homens não encontravam qualquer dignidade real em nosso Senhor: nenhuma coroa, ou exército, ou domínio terreno. Não viam outra coisa além de um indivíduo pobre, que com freqüência não possuía um lugar para repousar sua cabeça. No entanto, foi nesta ocasião e nestas circunstâncias que Pedro declarou com ousadia sua fé, confessando ser Jesus o Cristo de Deus. Realmente esta foi uma grande fé! Sem dúvida, nela havia muita imperfeição e ignorância. Mas, proclamada desta maneira, foi uma fé sem igual. Aquele que a possuía foi um homem notável, que ultrapassou em muito a época em que viveu.

Devemos orar freqüentemente para que Deus levante mais crentes semelhantes ao apóstolo Pedro. Apesar de inconstante, instável e ignorante quanto a seu próprio coração, conforme algumas vezes demonstrou, aquele bendito apóstolo foi em alguns aspectos mais valioso do que dez mil outros homens. Teve fé, amor e zelo pela causa de Cristo, quando quase todo o Israel mostrou-se apático e incrédulo. Desejamos mais homens desse tipo. Queremos homens que não têm medo de ficar sozinhos e achegados a Cristo, quando milhares estão contra Ele. Homens como Pedro podem às vezes cometer tristes erros, mas durante toda a sua vida farão mais do que qualquer outro pela obra de Cristo. O conhecimento, sem dúvida, é algo excelente; todavia, sem zelo e compaixão não fará muito em benefício do mundo.

Por último, devemos observar nesta passagem a predição de nosso Senhor referente à sua própria morte. Ele disse: “É necessário que o Filho do homem sofra muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas; seja morto e, no terceiro dia, res suscite”. Estas palavras, lendo-as agora, parecem simples e claras, mas transmitem duas verdades que precisam ser relembradas com atenção.

Por um lado, esta predição de nosso Senhor nos mostra que sua morte, na cruz, foi um ato deliberado de sua livre e espontânea vontade. Ele não foi entregue a Pilatos e crucificado porque não podia evitar ou não tinha poder para destruir seus inimigos. Sua morte foi o resultado do eterno conselho da bendita Trindade. Ele se comprometeu a morrer pelos pecados do homem, o justo em lugar dos injustos, a fim de conduzir-nos a Deus. Como nosso Substituto e Fiador, Ele voluntariamente carregou nossos pecados sobre Si mesmo na cruz. Durante todos os dias de sua vida, Ele via diante de Si o Calvário e a cruz. Estando ciente, com es­pontaneidade e pleno consentimento, Jesus foi ao Gólgota, para morrer na cruz, a fim de, com seu próprio sangue, pagar nossa dívida. A morte de Cristo não foi meramente a morte de um homem fraco, que não podia evitá-la, e sim a morte dAquele que era o próprio Deus e havia determinado sofrer em nosso lugar.

Por outro lado, esta predição de nosso Senhor nos mostra o efeito obscurecedor que os preconceitos causam nas mentes dos homens. Embora as palavras de Cristo sobre sua morte nos pareçam claras e inconfundíveis, seus discípulos não as entenderam. Ouviram-nas como se nada lhes houvesse sido dito. Não entendiam que o Messias seria “cortado” de entre eles. Não podiam aceitar o ensino de que seu próprio Senhor teria de morrer. Portanto, quando sua morte realmente aconteceu, ficaram admirados e confusos. Embora o Senhor lhes houvesse falado sobre a crucificação, não a entenderam como uma realidade.

Vigiemos e oremos contra o preconceito. Muitas pessoas zelosas já foram severamente enganadas por causa de preconceitos e se afligiram com muitas tristezas. Tenhamos cuidado para não permitirmos que tradi ções, idéias preconcebidas, interpretações incorretas, teorias sem fundamentos arraiguem-se em nossos corações. Existe apenas um teste para julgarmos a verdade: “O que dizem as Escrituras?” Diante disto, todos os preconceitos devem ruir.